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E viveram felizes para sempre

em 23 de abril de 2021


Autor: Julia Quinn

Editora: Arqueiro 

Gênero: Ficção Histórica, Romance

Série: Os Bridgertons Vol. 9

Páginas: 320


Após oito volumes, Julia Quinn volta a família Bridgerton a pedido dos fãs para mostrar mais um pouco de cada personagem.

Neste volume vemos 8 contos inéditos sobre os pares tão amados que aprendemos a conhecer nos livros da série, assim como cada conto é iniciado por um depoimento de Julia sobre o que achava que faltava mostrar sobre cada história.

Nesta coleção que agora vira série na Netflix, somos apresentados a família Bridgerton onde a mãe Violet tem o sonho de casar todos os oito filhos na alta sociedade.


A cada livro somos apresentados há um filho: Daphne (O Duque e Eu), Anthony ( O Visconde que me amava), Benedict (Um perfeito cavaleiro), Colin (Os segredos de Colin Bridgerton), Eloise (Para Sir Phillip, com amor), Francesca ( O Conde Enfeitiçado), Gregory ( Um Beijo Inesquecível ) e Hyacinty ( A caminho do Altar ).

Após conhecermos todos e seus pares, acabamos nos apaixonando por um ou outro casal, Pessoalmente meus preferidos são Anthony e Kate, Colin e Penélope e Eloise e Phillip.

Os contos são muito divertidos por revisitarmos o dia de casal após anos de casamento. Afinal todos os livros acabam com um epilogo de futuro, mas sempre ficamos com o gostinho de quero mais. E Julia Quinn sabe encantar o leitor magistralmente.

Esse livro é indicado a todos que gostaram da série de livros. A seguir confiram o trailer da primeira temporada da série que é a adaptação do primeiro livro O Duque e Eu


Dica: Escrito em Algum Lugar

em 12 de setembro de 2019



Lançamento do autor Vitor Martins, conhecido por Um milhão de finais felizes e Quinze Dias. Na trama Antônio, um jovem de 26 anos descobre que a banda Triple J de quem era fã na adolescência resolveu fazer uma turnê de reunião e com shows no Brasil. 

Como não podê ir no Show anterior, isso impacta Antonio que decide que é uma "questão de honra" ir ao show desta vez.

Ele tenta arrastar seus dois melhores amigos nessa jornada, mas acaba fracassando no intento. Mesmo assim ele reunê a coragem para "acampar na fila". Lá ele acaba conhecendo Gustavo e uma surpreendente amizade e talvez algo mais acontece.

Mais uma vez o autor nos presenteia com uma romance leve e divertido na medida certa, e super atual e fácil de se identificar. Você se pega sorrindo com facilidade e simpatizando com os personagens naturalmente. 

O conto está disponivel apenas em ebook pela amazon por enquanto, segue o link: encurtador.com.br/jHPW9


O Autor: 
Vitor Martins é apaixonado por livros, filmes, séries e pizza. Ele mora em São Paulo com seu namorado e dois gatos insubordinados. VM é designer gráfico, ilustrador, e autor também de Quinze Dias.  


Outras resenhas no barato: 

Conto: Aquela Luz na Escuridão | Parte 03

em 10 de agosto de 2018


Clique para ler as partes 01 e 02.

Acordei e senti o dia entrando nos meus olhos através das lentes dos óculos escuros.  Erébia dirigia e percebi que estávamos na rua da minha casa.

— Bom dia. — balbuciei ainda sonolenta.
— Bom dia, Liz. — Por que senti uma coisa estranha na voz dela?
— Qual a programação para hoje?
— Nos livrarmos das suas coisas.
— Quê?

Erébia estacionou e entramos na casa. Roxy nos encarou do seu canto no apoio do sofá. Não sei se é por que eu tinha acabado de acordar, mas uma sensação de que aquela casa não me pertencia mais, era bem estranha. Parecia que eu tinha estado ali há muito, muito tempo atrás.
Subimos e Erébia começou a arrumar as malas.

— Quais as roupas que mais gosta? — Ela perguntou.

Depois de guardar a mala no carro, Erébia descarregou quatro galões enormes de gasolina e começou a espalhar por toda a casa. Roxy correu para fora e eu tentava assimilar o que estava acontecendo.
Minha mente flutuava, era difícil focar, estabelecer prioridades, entender o que estava havendo. Então lá do fundo emergiu uma lembrança tão luminosa quanto a chama do fósforo que estava aceso em minha mão. Uma certeza que as coisas não estavam como deviam ser.


— Peraí! — Gritei.
— Não grita assim! Quer estourar meus ouvidos, maluca?
— O que estamos fazendo?
— Não é óbvio?
— Não, não é. E você vai me explicar tudo agora ou não vamos a lugar nenhum!
— Ah, não? — E Erébia sorriu aquele sorriso de quem já ganhou a briga. Mas não ia, não mesmo!

Nossas consciências se encararam, nossos olhos sustentaram o peso uma da outra. Erébia tentou mover o meu corpo, mas não conseguiu, porque dessa vez estou desperta. E ela até podia morar em mim, mas eu era a dona do meu corpo! Mesmo assim, o fósforo caiu, começando o incêndio na lavanderia.

Não permiti que Erébia movesse o meu corpo. Nós não sairíamos dali. Eu não ia deixar ela queimar a casa em que nasci, a minha casa!

— Precisamos sair daqui, Liz! Sair agora!
— Não vou a lugar nenhum. Ou você apaga esse fogo ou a gente vai queimar aqui. Seus dois mil anos vão acabar numa fogueira!
— Você não nos deixará morrer.
A lavandeira estava quente, muito quente. O fogo se alastrava rápido e se eu não fizesse nada tudo ali iria pelo ares. Comigo junto.
— Não é óbvio pra você, que não pode mais viver como antes? Quando me aceitou, aceitou também a minha vida e as coisas que preciso fazer. Nós precisamos encontrar uma maneira de liberar os meus poderes. Eu não consigo usá-los estando aqui dentro.
— Isso não é desculpa para incendiar minha casa, Erébia! Quando a minha mãe acordar ela vai voltar para onde?
— Liz...
— Não sei que porra que você quer Erébia, mas não vai ser tão fácil me apagar. — Falei quase rosnando.

Corri para a cozinha, apanhei o extintor e comecei a apagar o fogo da lavanderia. Não foi fácil e a fumaça já tinha começado a queimar o meu peito. Definitivamente aquele não era um bom dia para morrer.

***

Depois de tomar toda água da geladeira, eu percebi que quase tinha morrido. Aquele fedor de queimado não ia largar do meu corpo tão cedo.

— Chega. — Eu disse. —Você precisa de um novo corpo. Eu me sentia traída e sobretudo, assustada com o que tinha acabado de acontecer.
— Só terei energia para isso de novo daqui uns cem anos.
— Nós vamos viver assim nos próximos cem anos?! — eu não queria, mas o desespero começou a tomar conta.
— Não se preocupe, coelhinha. Humanos não costumam viver tanto tempo. — Sorriu sarcástica.
Minha barriga estremeceu, e inspirei o ar com força. Estava prestes a chorar. Mas não ia. Não dessa vez.
— Você já tinha pensado em tudo, não é? Você sabia que eu não te diria não. Que a trouxa aqui te daria essa merda desse corpo de boa vontade em troca de umas migalhas de companhia, não é?

A verdade, e eu sabia que era verdade, porque Erébia se fechava em silêncio, ria da minha cara. Eu devia ser muito estúpida. Ela nunca havia me amado, Erébia só queria um corpo novo. Talvez nem tivesse ninguém na cola dela. Eu era um saco vazio, uma embalagem a venda. O peito doía numa falta de ar absurda.

— Já que é assim, vamos viver a MINHA vida enquanto eu estiver viva.  E isso inclui manter a minha casa intacta. Eu sei que você me acha uma estúpida, Erébia. Mas aceitar você em mim não te dá o direito de me apagar! De destruir a minha vida! — A essa altura eu estava gritando. Claro.
Erébia me olhava estupefata.
— Você é louca, garota. Sempre foi. Você tem noção do que está me pedindo?
— O que são algumas décadas, para você, Erébia? Isso vai passar pra você como um piscar de olhos, mas pra mim... é a minha vida, poxa! A vida que você está tentando acabar, não é?
— Você quer que eu viva como uma mortal comum. E isso não pode acontecer. Se ficarmos aqui, estaremos vulneráveis, não entende? E eu não tenho os meus poderes para nos proteger.
— Ótimo! — Eu disse, o desafio ficando nítido na minha voz. — Então pode se acostumar com a minha vidinha mortal sem graça, Erébia Stapapoulos! Por que eu não vou abrir mão da minha vida, pra embarcar na sua!

A conversa morreu um pouco depois, sem acordo. Arranquei dela a promessa de que não haveriam mais incêndios envolvendo qualquer coisa minha. Algo me diz que Erébia não era boa em cumprir promessas.

De qualquer maneira, a maior merda de todas eu já tinha feito sem nem pensar: aceitar que Erébia morasse dentro de mim. Agora nós tínhamos que seguir sem tentar nos matar. Ou morrer tentando.


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Continua! Em breve a parte 04 estará aqui no blog!

Microcontos 4!

em 9 de julho de 2018


Rastejou para dentro de sua toca novamente.
Não gostava de sair mesmo morando no mundo avernal.
Tudo lá fora parecia sufocante, brilhante e lhe esgotava as forças.
Repousou em sua lápide fria com as mãos sobre o peito e suspirou enquanto seus cabelos negros se emolduravam a sua volta.
Perséfone retornava a seu sono por mais um período de lua negra.


A senhora do noite desnudou seu véu diante de seus aprendizes.
Era a única noite em suas vidas que a veriam fazer isso. Puxando sua varinha e entoando palavras em uma língua a muito esquecida, um pequeno tremor foi sentido, o céu ficou mais escuro e asestrelas mais brilhantes. Mas, nenhum deles via isso.
Eles viam a pequena mulher franzina agora se revelando uma deusa de beleza incomensurável e que nenhuma palavra poderia definir de forma que alguém além de quem não estava ali compreendesse.




- Não fique assim Silvestra, vamos dar um jeito...
- Um jeito? Você só fala isso porque virou um homem do espaço, veja no que me transformei? Sou um burro como na peça de Shakespeare!
- Calma querida.
- Calma nada! Volte a rainha das fadas e repare a ofensa para que ela nos transforme de volta!
- Mas...
- Mas nada! Vá andando Arturo. Hunf!

E esse foi um conto de Josy Santos!
Me aventurando no mundo das letrinhas há cerca de dois anos, incentivada pela Dany Fernandez, minha companheira no blog "Barato Literário".
Publiquei os contos "Estrela" e "O Mago" na antologia "Etéreo- Contos Fantásticos" da Andross Editora, o conto "Sereia Negra" na antologia "Criaturas do Submundo" da Editora Wish e o conto "Jane Black, Caçadora de Recompensas" na antologia "Fantásticas" da Giz Editorial.
Espero que gostem da leitura ou não e comentem e deixem sua opinião.
Abraços

Conto: Aquela Luz na Escuridão | Parte 02

em 15 de junho de 2018



Acordei com a claridade da manhã invadindo o quarto. Era sábado. Minha cabeça doía de uma maneira que jamais pensei ser possível doer. Imagens da noite passada chegando embaçadas e atropeladas na minha mente. Erébia. Ela tinha vindo... Nós fizemos amor. E eu tinha surtado. Não necessariamente nessa ordem. Mas tinha acontecido. E tinha o tufão.
Olhei alarmada ao redor. Os móveis estavam no lugar. Nada parecia errado e eu tinha delirado forte noite passada. Os remédios para ansiedade estavam comprometendo minha cabeça. Certeza.
Levanto ainda zonza mas logo percebo Roxy deitado sobre algo no chão. Há alguém caído de bruços no meu quarto, servindo de almofada para o meu gato.  Reconheço aquele corpo magro, o cabelo encaracolado quase laranja. Toco no ombro de Erébia e sinto sua pele gelada. Viro seu rosto para cima. A pele está roxeada. Ela não respira. Minha mente registra o que eu já tinha constatado desde quando a vi, mas não queria aceitar. Eu sabia que ela estava morta.
Tapei a boca e me arrastei para o outro lado do quarto. Por fora eu estava muda, mas por dentro gritava histérica. O estômago embrulhou e pontadas fortes alfinetaram minha cabeça.
Como isso foi acontecer?

— Liz?
— Erébia? Onde você está?
— Aqui. Dentro de você.

Os batimentos do meu coração voltaram ao normal e uma sensação de bem estar se espalhou pelo meu corpo.

— Foi você quem fez isso?
— Pelo menos isso posso fazer. Agora me escute, precisamos nos livrar do meu corpo.
— O quê?!
— Nós devíamos ter feito isso na minha casa, mas tudo aconteceu tão rápido.
— Você sabe que tenho problema com coisas mortas, Erébia. Eu não vou tocar em você.

Ouvi um suspiro impaciente dentro de mim.

— O corpo do outro lado não sou eu, Liz. Eu estou aqui com você. Emvocê. Aquilo ali é só uma casca. Não pode nos fazer mal nenhum. Mas pode nos enfiar em sérios problemas.

Okay. Vamos lá, Lizandra. Você deixou isso acontecer, agora cuide disso. Levantei, respirei fundo e levantei os ombros. Mas quando vi o cadáver novamente, minhas pernas bambearam e corri para o banheiro. Quase não deu tempo de acertar o vômito no vaso.

— Você pode fazer aquilo de novo? De me acalmar?
— Para quê? Vai ser só desperdício de energia.
— Então o seu corpo vai apodrecer na minha casa? Se você não me ajudar, eu não vou conseguir chegar perto daquilo.
— Você fala com muito nojo de um corpo que te fez bem feliz ontem à noite. — A frase terminou com uma risada alta.

Irritante. E me deu ainda mais vontade de vomitar só de lembrar que tinha transado com a coisa morta no meu quarto. Outro suspiro impaciente, que não era meu.

— Me deixe assumir o seu corpo.
— E como faço isso?
— É como se deixar boiar na água. Enquanto você boia eu posso assumir e resolver tudo.

Fechei os olhos e foquei em boiar. Consegui. Minha consciência tocava uma barreira líquida dentro de mim mesma. Eu podia ver o contorno de Erébia se ligando ao meu cérebro, tomando conta do meu corpo.
Ela levantou, foi até o guarda-roupas sem nem mesmo olhar para o seu antigo corpo.

— O que você quer vestir hoje?
— Pode escolher.
— Como se tivesse o que escolher. Desde quando você só usa preto, Liz?

Não respondi. Lá no fundo do armário, ela encontrou o vestido azul florido que tinha me dado anos antes.

— Eu sabia que você não tinha jogado fora. — disse com ar divertido na voz — Vamos estrear esse vestido hoje. Juntas.

O vestido ficou perfeito no meu corpo. Mas de alguma maneira que não sei explicar, eu sabia que quem estava usando era ela. Opa, o que ela estava fazendo?

— Tem um monte de sapatos lá em baixo, Erébia! Por que tem que tirar esses coturnos velhos do cadáver? — Perguntei, espantada.
— Nada no mundo é mais confortável que os meus coturnos. E eles combinam com tudo, olha só. — Disse já terminando de calçá-los. — Calçamos o mesmo número, perfeito!

Erébia desceu as escadas, preparou ovos e café. Depois que comemos, pegou dois sacos grandes de lixo e subiu novamente para o meu quarto. Embrulhou o corpo que já estava ficando rígido. Depois jogou-o sobre o ombro e desceu novamente para a sala.
Eu estava pasma. Meu corpo não era forte assim. Aquela força só podia ser dela. Antes de sair, pegou minha bolsa, conferiu os documentos, pegou a chave do carro da minha mãe.

— Eu sei que você não gosta de dirigir. Então vamos nos manter assim, até eu terminar de resolver isso, ok?
— Unhun — concordei com um murmúrio.

Tinha algo me incomodando. Erébia estava agindo muito a vontade no meu corpo. Ela agia como se sempre tivesse feito esse tipo de coisa. Uma sensação lá no fundo começava tomar forma, como um verme. Resolvi ignorar.

Sem esforço algum, Erébia jogou o embrulho no porta malas do Meriva. Entramos no carro, ela deu partida e fomos embora. Só quando pegamos a estrada, percebi que estávamos indo longe demais.

— Para onde estamos indo afinal?
— Para minha casa.

Paralisei. Nos conhecíamos há pelo menos dez anos e ela nunca tinha mencionado sua casa. Nunca. E agora eu estava indo direto para os seus domínios! Fiquei ansiosa como uma garotinha. Ela percebeu.

— Animada para conhecer minha casa, coelhinha?
Não respondi. “Coelhinha” era um apelido muito mais ridículo do que qualquer outro.
— A vida adulta está te tornando rabugenta muito rápido, Liz.
— Se isso quer dizer que eu estou crescendo, então estou mesmo.

Ela riu.
— Por mais rabugenta que você possa vir a se tornar, seu coração sempre vai ser precioso, Liz. Tão precioso, que qualquer um do mesmo material que eu não conseguiria ficar longe.

Nunca perguntei o quê ou quem Erébia era. Ela existia e eu a amava. E quem liga se ela é um monstro, uma bruxa, humana ou alienígena? Quando ela entrou na sala de aula se apresentando como professora de história, meu coração disparou. Naquele momento descobri que gostava de meninos e meninas, igual a musica do Legião.
Eu perseguia a professora Stapapoulos, me tornei a melhor aluna da turma. Vivia arrumando desculpas para tirar dúvidas com ela fora do horário de aula. E quando descobri que ela dava aulas particulares também, convenci minha mãe de que eu precisava muito de reforço.
E antes que pudesse entender o que estava havendo, já tínhamos trocado beijos e carícias. Nossa primeira vez foi no sofá da salinha comercial alugada para as aulas. Estar com Erébia tinha o tesão do proibido, e a mágica que tornam sagrados os segredos. Ela era o pedaço da minha história que era só meu e de mais ninguém.
Um dia, ela me levou para o limite do universo, onde todas as galáxias se encontravam. Foi a coisa mais linda que vi e a lembrança que carregaria comigo para qualquer outra vida que ousasse viver. Mas isso tinha sido há muito tempo atrás.

— Chegamos. — Ela disse, saindo da estrada principal e virando numa ruazinha de terra batida, com mato dos lados. E lá no final, uma casinha branca e bem cuidada fechava a rua. O tipo de construção lembrava muito um chalé.

Estacionamos em frente a casinha. Erébia saiu do carro e sem nem mesmo averiguar se tinha alguém nos observando, apanhou o embrulho do porta malas, jogou por cima do ombro e entrou na casa, que não estava trancada.
Eu queria ver tudo. Mas Erébia desceu um lance de escadas e fomos parar no porão.

— Que escuridão. Você não pode acender a luz? — E a luz acendeu quase ao mesmo tempo em que pedi.
— Ainda tem medo de escuro?
— O que vai fazer agora? — Perguntei de volta.

Procurei observar onde estávamos. Parecia um laboratório. Laboratório num porão. Tinham freezers grandes, prateleiras cheias de tubos e tipos diferentes de potes de vidro.
De baixo de uma mesa grande encostada em uma parede, tinham dois barris de plástico gigantes.
Erébia jogou o embrulho em cima da mesa de metal e então começou a rasgar o saco.

— Melhor fechar os olhos, Liz.
Fechei.
— Não esses olhos. Feche os olhos da mente.

Tentei. Fechar os olhos da mente soava como não querer enxergar o que estava na minha cara. Ok. Eu podia fazer isso. Eu realmente era boa em fazer isso. No entanto... senti a curiosidade mórbida lambendo meu estômago. Abri um olho e depois outro.
Erébia puxou um dos barris que estava em baixo da mesa e com cuidado acomodou o corpo lá dentro. O líquido transparente e sem cheiro que tinha la dentro, foi dissolvendo o antigo corpo da minha namorada. Uma contração no estômago e logo depois eu estava vomitando o café da manhã dentro do barril.

— Que droga, Liz! — Erébia reclamou entre uma golfada e outra.
— Preciso lavar a boca — falei ainda nauseada.
— Nem precisa pedir.

Subimos e entramos no banheiro perto da cozinha. Erébia escovou e escovou minha boca. Gargarejamos e de repente eu me senti muito cansada.

— Não vai me mostrar a casa? Você nunca me trouxe aqui. Eu sempre tive curiosidade de saber como era o lugar que você morava.
— Não tem nada aqui para ver.
— Tem certeza? Pois eu achei muito suspeito você ter material para derreter cadáver no porão da sua casa. E eu juro que já vi alguma coisa parecida na tv naquele seriado, como era mesmo o nome?
— Não duvido. Bem, aqui é a sala.

Um cômodo pequeno, mas aconchegante, com muitas estantes de livros. No canto, uma poltrona com luminária ao lado, dava um ar romântico às coisas. A cozinha era pintada de azul e além dos móveis normais, ainda tinha um fogão a lenha bem pequeno. Voltamos para a sala e subimos uma escada que dava num mezanino. Uma cama estilo futon, sobre uma base de madeira ocupava a maior parte do espaço. Mais livros ao redor e no teto, uma claraboia.

— Sua casa é muito fofa. Romântica. Eu não sabia que você gostava tanto de ler.
— Pensei em te trazer aqui muitas vezes.
— É mesmo?
— Mas nunca tive coragem. Aqui é tão meu. E depois, você jamais saberia vir aqui por conta própria.
— E onde é exatamente aqui ? Porque dá pra sentir que não estou exatamente em São Paulo, é como se estivéssemos em algum lugar que não está em lugar nenhum.

Erébia sorriu, surpresa. E eu sei que ela sorriu, porque eu senti ela usar meu rosto. Era estranho dividir o meu corpo com alguém. Mas não tão estranho quanto achei que fosse.

— Uma fenda bem pequena entre lugar nenhum e canto algum. Nenhum humano vivo consegue acessar sem ajuda. E você ter conseguido descrever tão bem a sensação de estar aqui é surpreendente.
— Por que?
— Porque você é só uma humana.

Para mim não fazia sentido. Mas sempre achei que as coisas que Erébia falava se explicariam sozinhas de um jeito ou de outro. Tinha sido assim desde que eu conseguia me lembrar. E vindo dela, nada parecia fora do contexto.
Decidimos dormir por lá. O tempo na casa da fenda parecia simplesmente não existir. Eu sabia que já devia ser noite. Mas lá fora ainda tinha sol. O mesmo sol de quando chegamos.

— É sempre dia aqui?
— Depende para onde olha. — Erébia disse, puxando a alavanca e abrindo a claraboia. Lá em cima, no céu, já era noite.

Fiquei maravilhada. Mas logo senti minha cabeça apagando. Eu estava exausta. Um tipo de cansaço inadiável. Erébia insistiu que devíamos jantar antes de dormir. Eu nunca como antes de deitar a noite.
Mesmo assim, cedi. Ela preparou um creme e salada de rúcula. Com as coisas que nunca estragam da geladeira que nunca para de funcionar. Comemos em silêncio, mastigando sem pressa. Minha capacidade de pensar ficando cada vez mais pastosa.

— Erébia?
— Sim?
— Por que está tão calada?
— Cansaço.
— Eu também to exausta.

Subimos para o mezanino, tiramos a roupa e antes que dormíssemos de vez, nossas consciências se buscaram e sei que nos beijamos.

— Boa noite, Liz.
***
________________________ CONTINUA____________________________________

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Conto: Aquela Luz na Escuridão | Parte 01

em 6 de abril de 2018


No hospital, o tempo para visitas acabou. Eu não sei se ela sente que passei as últimas duas horas ao seu lado. A quanto tempo estamos assim? Tão perto e tão longe? Ando o mais rápido que posso até a saída. Os corredores frios e brancos, e o cheiro de iodo e desinfetante de eucalipto me enjoam. Já é noite e atravesso a rua para chegar ao ponto de ônibus. Não moro longe, menos de dez minutos depois estou em casa.

As luzes do sobrado estão acesas, porque as deixei assim quando saí pela manhã. Entro em casa sabendo que apenas Roxy, o meu gato preto me espera. Suspiro, resignada.

 — Roxy! — chamo e balanço a sacola para ele ouvir o som das latinhas batendo. Ele me olha preguiçoso, sobre o encosto do sofá. — Hey bebê, olha o que a mamãe trouxe!

Antes mesmo que eu termine de abrir a lata, Roxy já está roçando em minhas pernas, ronronando. Despejo a ração molhada no pratinho dele e o vejo comer aquele troço com vontade.

De todas as coisas que odeio, ficar só é a pior de todas. Por que ficar só significa que não vou poder fugir dos meus pensamentos. E a solidão me faz pensar Nela. Basta um minuto de silêncio e eu sei que a imagem Dela vai surgir lá do fundo das coisas que não devem ser lembradas. Não sem desconforto. Vaca.

Subo as escadas. O plano para a noite é o mesmo de todas as outras: tomar banho e estudar. Pensei em cancelar o serviço de séries só para não me distrair. Mas é claro que eu não fiz isso. Em contrapartida, deletei minhas contas nas redes sociais. Não sei bem quando comecei a ficar assim, tão chateada com a vida. “Bem, motivos não faltam”. Penso comigo mesma e um sorriso sarcástico toma conta do meu rosto.

Parece que, de certa forma, eu pausei a parte de mim que deveria viver. Estava me conformando com a ideia de “ir levando”. Tomo o meu banho no automático, não demoro muito. Antes mesmo que eu saia do banheiro, sinto o cheiro dela. Não é um perfume. É um cheiro que é só dela e de mais ninguém. Abro a porta, apressada. E a encontro sentada na beirada da minha cama. Erébia estava de volta.

***

Endireito as costas e a encaro. O coração está descompassado. Ainda tenho dúvidas se a mulher sentada na minha frente é ela mesma ou minha imaginação. Queria correr para os seus braços e dizer o quanto senti sua falta. Eu não queria que ela fosse embora nunca mais. Mas ao invés disso eu pigarreio para ter certeza que a voz não vai falhar e pergunto com a maior frieza que consigo imprimir:
— O que você quer?

Ela sorri, aquele sorriso lindo que se espalha pelo quarto inteiro.
— Como você está? — Erébia olha para mim e sinto o corpo arrepiar por baixo da toalha. —Soube o que houve com a sua mãe.
— E por isso você veio? Um pouco tarde, não acha? — Precisava me manter distante o suficiente.

Erébia levantou e caminhou até mim. Os passos felinos me encurralando. Os olhos cor da noite me encarando. Parou bem próxima, o suficiente para eu ter certeza que o seu cheiro era real. Para que eu sentisse o seu calor. Com delicadeza, encaixou uma mecha do meu cabelo molhado atrás da minha orelha. Recuei um passo e ela veio junto.

— Me perdoe, Liz. Eu não pude vir antes. — Ela falava baixinho.
— Não me chame de Liz! — explodi e me livrei do abraço que ela estava prestes a me dar — você sabe que eu odeio! Meu nome é Lizandra! LI – ZAN-DRA! O que te impedia de vir me ver, Erébia? O quê? Você sabe que odeio quando você faz isso! Odeio quando me deixa só! Toda vez que preciso de alguém de verdade ao meu lado você some, sua vadia desgraçada!

Eu gritava minha dor. Percebi que estava difícil respirar porque eu soluçava, e lágrimas pesadas vazavam dos meus olhos. O meu corpo todo tremia e me faltavam forças. Encostei na parede do guarda-roupas e deslizei para o chão. Não conseguia parar.

Erébia sentou ao meu lado deitou minha cabeça em seu ombro. E nem sua presença conseguia aplacar aquele buraco no meu peito que eu vinha tentando ignorar. Eu já não controlava os meus pensamentos.

— Ela vai ficar bem, Erébia? Minha mãe vai acordar e levantar daquela cama?
— Mas é claro, coelhinha. E eu vou te ajudar. Shiii. Vai ficar tudo bem. Você não precisa mais chorar. Eu não vou mais sair do seu lado.
— Promete?

Ela não me prometeu nada. Mas me respondeu com um beijo longo e fomos para a cama. Porque entre nós as coisas eram assim. Erébia sumia e aparecia de novo. E toda vez que ela ia meu coração ia junto. E quando ela voltava, a vida parecia fazer sentido outra vez. E durante aquelas horas em que ela me fez esquecer de tudo, eu quis acreditar que as coisas dariam certo.

***
Acordei quando ainda era madrugada. A garganta seca. A luminária do criado mudo jogando luz amarela no quarto. Me assustei ao encontrar Erébia deitada na cama de frente para mim. Ela me olhava e me deixei levar pelos seus olhos. Estávamos nuas, nossas mãos entrelaçadas. Meus olhos ardiam um pouco, nem precisava me olhar no espelho para saber que estavam inchados. Eu devia estar ridícula. Institivamente, puxei o lençol.

— Você é linda, Liz. — Ela disse, acariciando meu rosto.
— Você não dormiu?
— Você sabe que não durmo. — e sorriu.
— Está acontecendo alguma coisa, não está? — agora que eu não estava mais surtando, podia ver as coisas com mais clareza.
— O meu tempo aqui está acabando.
— Quê? — Me sentei na cama para assimilar o que estava ouvindo.
— Os zeladores do tempo já estão me caçando. De novo.
— Por isso você sumiu?
— Eu pensei em ir com eles dessa vez.
— Mas por que? E eu?
— É por você que ainda não fui.
— Eu não quero que você vá. — e a minha voz saiu ridícula, infantil. Com Erébia, eu sempre seria uma garota mimada de dezesseis anos. — Depois de passar dois mil anos aqui na terra, como você pode simplesmente ir para outro lugar?

Erébia riu.

— Você continua sendo a criança que conheci, Liz.
— Eu sei que perto de você eu não sou nada. E talvez eu não signifique nada para você também... — as lágrimas começaram a surgir de novo.
— Tem um jeito de eu conseguir ficar. E é exatamente o jeito que eu não queria fazer.
— Que jeito?
— Para fugir dos zeladores, eu preciso me esconder em você.
— Como assim?
— Tenho que apagar os rastros do corpo em que eu estava.
— E por que você tem que se esconder em mim?
— Eu não tenho mais tempo para convencer ninguém a me esconder.
— Foi só por isso que você voltou, não é?
— Por que você é tão desconfiada? Não ouviu nada do que eu disse? Eu vim me despedir, sua fedelha!
— E como eu posso confiar em você, Erébia?
Ela ergueu os braços num gesto de paz. Levantou da cama e começou a procurar as roupas pelo quarto. Aquela vadia ia embora de novo... e dessa vez, talvez nunca mais voltasse.
— Você é uma entidade milenar. Eu já vi as coisas que pode fazer. Como não consegue se livrar de meia dúzia de zeladores?

Ela riu de novo. De mim.

— Liz, quantas vezes eu já te expliquei que as leis do universo são para todos? Por que você acha que as pessoas morrem? O tempo passa, Liz. Mesmo que todos os relógios do planeta deixassem de funcionar ou de existir, ou se não conhecêssemos o conceito. O tempo passa. E pode acreditar, ele acaba. Os zeladores são responsáveis para que nada nesse mundo dure mais que o necessário. E nós sabemos que eu estou aqui muito além do necessário. Devo ter quebrado todas as regras que os burocratas da Ordem criaram.
E quando ela terminou de falar, já estava vestida novamente. Os coturnos calçados.
— Para onde você está indo?
— Eles chegaram. E não faço a mínima ideia de para onde vão me levar.

Uma ventania forte levantou as cortinas da janela e a porta abriu com estrondo. Passos firmes subiam a escada. Eu sabia que ela não estava mentindo e quem quer que fosse que estivesse causando aquele tufão dentro da minha casa, estava mais do que disposto e levar Erébia embora e isso eu não ia permitir. 

— Erébia?
— Liz.
— Ainda dá tempo de ficar comigo?
Ela sorriu e tocou minhas têmporas com as pontas dos dedos. Eu apaguei.



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CARMEM

em 9 de março de 2018


Sinopse: Amélia é uma jovem governanta começando seus trabalhos na Mansão Stern após ser contratada pelo excêntrico milionário Cássio. Aos poucos ela descobre que a mansão abriga mistérios e que giram em torno da pequena Carmen, a irmã mais nova.
Será que Carmen é apenas uma menina deslocada ou haveria um motivo sobrenatural para sua estranheza?

Mergulhe nesse mistério e descubra com Amélia o que pode acontecer nas sombras da mansão.


LEIA UM PEDAÇO DO PRIMEIRO CAPÍTULO:


 A charrete me deixou na entrada de uma estradinha de terra batida, ladeada por mato alto
e árvores. O condutor me disse que, seguindo por ali chegaria ao meu destino. Agradeci a carona
e segui. Aqui e acolá, as pedras me faziam pisar em falso, meus sapatos não estavam acostumados.

Me parabenizei mentalmente por ter escolhido um vestido cuja barra ficava pouco acima dos
tornozelos. Do contrário, teria uma boa quantidade de terra nas roupas. Sentindo o peso de minha
maleta, rezei para que a estrada chegasse logo ao fim. A viagem tinha sido cansativa e na ultima
noite havia dormido numa hospedaria na estrada, para garantir que chegaria pela manhã.

 Eu tinha sorte de chegar no alto da primavera, quando a neve e o sol mais frio tinham
ficado para trás. O caminho revelou uma leve subida e já estava ofegante ao finalmente enxergar
as grades grossas de um portão de ferro preto.

Além do portão havia um imenso jardim com estátuas brancas, retratando mulheres,
homens e crianças. Rosas brancas despontavam entre arbustos bem cuidados e outras plantas
ornamentais.

No centro do jardim havia um caminho de pedras lisas que se bifurcava ao chegar num
chafariz ornamentado de flores e tornava a se unir depois deste, apontando para o casarão.
Embevecida, puxei a corda do sino que localizei assim que me aproximei da grade.

Passados alguns minutos toquei novamente e ainda assim ninguém foi ao meu encontro. Resolvi
experimentar o portão e para minha surpresa estava aberto. Tive apenas que livrar o encaixe do
ferrolho e entrei no jardim.

Olhei ao redor e inspirei o perfume das flores. Depois de avançar além do chafariz, pude
ver melhor o casarão Stern. Uma construção sólida, quadrada e lisa. Havia pelo menos, oito
janelas de cada lado. A fachada inteiramente pintada de cinza. Era como se aquela casa não
pertencesse ao mesmo dono do jardim.

Meu estômago estremeceu. Jamais havia trabalhado numa propriedade tão imensa. Eu
tinha apenas 29 anos e nenhum resquício da segurança que deveria ter. Então respirei fundo,
apenas endireitei os ombros e segurei minha maleta com mais firmeza. No bolso do casaco minha
carta de recomendação.

Bati com a aldrava na porta de madeira maciça.  Ninguém. Bati novamente, controlando
a ansiedade. Nada. Lembrei-me do portão, e então segui o exemplo. A maçaneta estava
destrancada.

Entrei, cautelosa. A entrada da casa era marcada por um amplo salão sem mobília. O piso
era branco e tive certeza de que estava pisando em mármore. Logo a minha frente uma escadaria
larga que se bifurcava no andar de cima.

Haviam portas de madeira e vidro nas laterais do salão. Mantive silêncio procurando por
alguém que pudesse me receber, até ouvir um murmúrio vindo de uma das portas à esquerda.
Parecia que uma conversa se desenrolava e por mais que eu não quisesse parecer intrometida,
senti-me empurrada. Uma força magnética me puxava cada vez mais para perto.

— Olhos tristes são o que vejo em você.  — Ouvi uma voz masculina dizer.— Seus olhos
são enormes e me assustam, quando às vezes, e muito por acaso os encontro. Você não poderia
ser menos feia e desarrumada, Carmem? Anda sempre muda, esgueirando-se pelos cantos das
paredes, escondendo-se nas sombras atrás das portas desta casa imensa. Sua presença me enoja,
parece um bicho, não fala. Come sem maneiras.

Retraí-me. Quem falaria com outra pessoa assim?

— Os seus olhos tristes e enormes parecem cada vez maiores. — Ele continuou — Toda
vez em que me vejo obrigado a suportar sua imagem, são o que mais chamam atenção. Eles me
fazem perdoar toda a imundície que sua presença exala. Quero ver o quanto mais do seu rosto
estes olhos devorarão.

De onde eu estava, de frente para a porta semiaberta, pude ver o homem empertigar-se,
levantar da poltrona e aproximar-se de uma pessoa encolhida ao pé da escrivaninha. Dava para
ver um vulto vestido com panos encardidos. O rapaz suspirou e deu continuidade ao monólogo:

— Uma noite, sonhei que era toda olhos. Um grande par de olhos a vagar nesta casa, se
arrastando, como é de seu costume fazer. Foi uma visão medonha, tenho que admitir, mas... muito
intrigante. E penso se não é possível que se torne realmente aqueles olhos. Como sempre não fala
nada. É muda mesmo ou não sabe falar, criatura asquerosa?— Só então me dei conta de que se
tratava de uma garota, embora não pudesse ver seu rosto. A moça encolheu-se.

—Devia arrancar sua língua! É desnecessário mantê-la, se não a usa para nada!
O rapaz agachou-se e esbofeteou a menina com força. Limpou o sangue do anel num
lenço e ordenou que o deixasse em paz. Ela, por sua vez, arrastou-se para fora da sala, empurrando
com força a porta e deixando-a aberta de vez. Quase caí de costas com o movimento. Ainda me
sentia aturdida com o que acabara de assistir.

Enfiando o lenço no bolso do colete cinza, Cássio virou-se para mim lentamente,
parecendo finalmente atentar para minha presença.  Tentei controlar a tremedeira de meus braços.
De repente senti frio, mas busquei me manter firme nos segundos infinitos em que ele me encarou.
Na época me perguntei se ele sabia que eu estava ali, atrás da porta, acompanhando a cena
violenta. Hoje tenho certeza de que sabia, e mesmo assim não demonstrou constrangimento.
Tampouco parecia consternado ou envergonhado.

Ele apresentou-se como Cássio, dono do lugar e único herdeiro da família. Depois de uma
breve entrevista, passou-me a lista de obrigações e foi-se tão logo apresentou meus aposentos.
Meu quarto ficava no casarão, enquanto os outros empregados dormiam num pequeno prédio nos
fundos da propriedade. E assim fui admitida na Residência Stern.

Carmem era uma moça, cuja aparência me abstenho de descrever, por não encontrar
palavras que as valham. Tinha dezesseis anos, acho. Disseram-me que os jovens Stern eram
irmãos por parte de um dos pais. Nem sempre o que nos dizem é verdade. Quase nunca é.

...continua








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