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Conto: Aquela Luz na Escuridão | Parte 03

em 10 de agosto de 2018


Clique para ler as partes 01 e 02.

Acordei e senti o dia entrando nos meus olhos através das lentes dos óculos escuros.  Erébia dirigia e percebi que estávamos na rua da minha casa.

— Bom dia. — balbuciei ainda sonolenta.
— Bom dia, Liz. — Por que senti uma coisa estranha na voz dela?
— Qual a programação para hoje?
— Nos livrarmos das suas coisas.
— Quê?

Erébia estacionou e entramos na casa. Roxy nos encarou do seu canto no apoio do sofá. Não sei se é por que eu tinha acabado de acordar, mas uma sensação de que aquela casa não me pertencia mais, era bem estranha. Parecia que eu tinha estado ali há muito, muito tempo atrás.
Subimos e Erébia começou a arrumar as malas.

— Quais as roupas que mais gosta? — Ela perguntou.

Depois de guardar a mala no carro, Erébia descarregou quatro galões enormes de gasolina e começou a espalhar por toda a casa. Roxy correu para fora e eu tentava assimilar o que estava acontecendo.
Minha mente flutuava, era difícil focar, estabelecer prioridades, entender o que estava havendo. Então lá do fundo emergiu uma lembrança tão luminosa quanto a chama do fósforo que estava aceso em minha mão. Uma certeza que as coisas não estavam como deviam ser.


— Peraí! — Gritei.
— Não grita assim! Quer estourar meus ouvidos, maluca?
— O que estamos fazendo?
— Não é óbvio?
— Não, não é. E você vai me explicar tudo agora ou não vamos a lugar nenhum!
— Ah, não? — E Erébia sorriu aquele sorriso de quem já ganhou a briga. Mas não ia, não mesmo!

Nossas consciências se encararam, nossos olhos sustentaram o peso uma da outra. Erébia tentou mover o meu corpo, mas não conseguiu, porque dessa vez estou desperta. E ela até podia morar em mim, mas eu era a dona do meu corpo! Mesmo assim, o fósforo caiu, começando o incêndio na lavanderia.

Não permiti que Erébia movesse o meu corpo. Nós não sairíamos dali. Eu não ia deixar ela queimar a casa em que nasci, a minha casa!

— Precisamos sair daqui, Liz! Sair agora!
— Não vou a lugar nenhum. Ou você apaga esse fogo ou a gente vai queimar aqui. Seus dois mil anos vão acabar numa fogueira!
— Você não nos deixará morrer.
A lavandeira estava quente, muito quente. O fogo se alastrava rápido e se eu não fizesse nada tudo ali iria pelo ares. Comigo junto.
— Não é óbvio pra você, que não pode mais viver como antes? Quando me aceitou, aceitou também a minha vida e as coisas que preciso fazer. Nós precisamos encontrar uma maneira de liberar os meus poderes. Eu não consigo usá-los estando aqui dentro.
— Isso não é desculpa para incendiar minha casa, Erébia! Quando a minha mãe acordar ela vai voltar para onde?
— Liz...
— Não sei que porra que você quer Erébia, mas não vai ser tão fácil me apagar. — Falei quase rosnando.

Corri para a cozinha, apanhei o extintor e comecei a apagar o fogo da lavanderia. Não foi fácil e a fumaça já tinha começado a queimar o meu peito. Definitivamente aquele não era um bom dia para morrer.

***

Depois de tomar toda água da geladeira, eu percebi que quase tinha morrido. Aquele fedor de queimado não ia largar do meu corpo tão cedo.

— Chega. — Eu disse. —Você precisa de um novo corpo. Eu me sentia traída e sobretudo, assustada com o que tinha acabado de acontecer.
— Só terei energia para isso de novo daqui uns cem anos.
— Nós vamos viver assim nos próximos cem anos?! — eu não queria, mas o desespero começou a tomar conta.
— Não se preocupe, coelhinha. Humanos não costumam viver tanto tempo. — Sorriu sarcástica.
Minha barriga estremeceu, e inspirei o ar com força. Estava prestes a chorar. Mas não ia. Não dessa vez.
— Você já tinha pensado em tudo, não é? Você sabia que eu não te diria não. Que a trouxa aqui te daria essa merda desse corpo de boa vontade em troca de umas migalhas de companhia, não é?

A verdade, e eu sabia que era verdade, porque Erébia se fechava em silêncio, ria da minha cara. Eu devia ser muito estúpida. Ela nunca havia me amado, Erébia só queria um corpo novo. Talvez nem tivesse ninguém na cola dela. Eu era um saco vazio, uma embalagem a venda. O peito doía numa falta de ar absurda.

— Já que é assim, vamos viver a MINHA vida enquanto eu estiver viva.  E isso inclui manter a minha casa intacta. Eu sei que você me acha uma estúpida, Erébia. Mas aceitar você em mim não te dá o direito de me apagar! De destruir a minha vida! — A essa altura eu estava gritando. Claro.
Erébia me olhava estupefata.
— Você é louca, garota. Sempre foi. Você tem noção do que está me pedindo?
— O que são algumas décadas, para você, Erébia? Isso vai passar pra você como um piscar de olhos, mas pra mim... é a minha vida, poxa! A vida que você está tentando acabar, não é?
— Você quer que eu viva como uma mortal comum. E isso não pode acontecer. Se ficarmos aqui, estaremos vulneráveis, não entende? E eu não tenho os meus poderes para nos proteger.
— Ótimo! — Eu disse, o desafio ficando nítido na minha voz. — Então pode se acostumar com a minha vidinha mortal sem graça, Erébia Stapapoulos! Por que eu não vou abrir mão da minha vida, pra embarcar na sua!

A conversa morreu um pouco depois, sem acordo. Arranquei dela a promessa de que não haveriam mais incêndios envolvendo qualquer coisa minha. Algo me diz que Erébia não era boa em cumprir promessas.

De qualquer maneira, a maior merda de todas eu já tinha feito sem nem pensar: aceitar que Erébia morasse dentro de mim. Agora nós tínhamos que seguir sem tentar nos matar. Ou morrer tentando.


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Continua! Em breve a parte 04 estará aqui no blog!

Conto: Aquela Luz na Escuridão | Parte 01

em 6 de abril de 2018


No hospital, o tempo para visitas acabou. Eu não sei se ela sente que passei as últimas duas horas ao seu lado. A quanto tempo estamos assim? Tão perto e tão longe? Ando o mais rápido que posso até a saída. Os corredores frios e brancos, e o cheiro de iodo e desinfetante de eucalipto me enjoam. Já é noite e atravesso a rua para chegar ao ponto de ônibus. Não moro longe, menos de dez minutos depois estou em casa.

As luzes do sobrado estão acesas, porque as deixei assim quando saí pela manhã. Entro em casa sabendo que apenas Roxy, o meu gato preto me espera. Suspiro, resignada.

 — Roxy! — chamo e balanço a sacola para ele ouvir o som das latinhas batendo. Ele me olha preguiçoso, sobre o encosto do sofá. — Hey bebê, olha o que a mamãe trouxe!

Antes mesmo que eu termine de abrir a lata, Roxy já está roçando em minhas pernas, ronronando. Despejo a ração molhada no pratinho dele e o vejo comer aquele troço com vontade.

De todas as coisas que odeio, ficar só é a pior de todas. Por que ficar só significa que não vou poder fugir dos meus pensamentos. E a solidão me faz pensar Nela. Basta um minuto de silêncio e eu sei que a imagem Dela vai surgir lá do fundo das coisas que não devem ser lembradas. Não sem desconforto. Vaca.

Subo as escadas. O plano para a noite é o mesmo de todas as outras: tomar banho e estudar. Pensei em cancelar o serviço de séries só para não me distrair. Mas é claro que eu não fiz isso. Em contrapartida, deletei minhas contas nas redes sociais. Não sei bem quando comecei a ficar assim, tão chateada com a vida. “Bem, motivos não faltam”. Penso comigo mesma e um sorriso sarcástico toma conta do meu rosto.

Parece que, de certa forma, eu pausei a parte de mim que deveria viver. Estava me conformando com a ideia de “ir levando”. Tomo o meu banho no automático, não demoro muito. Antes mesmo que eu saia do banheiro, sinto o cheiro dela. Não é um perfume. É um cheiro que é só dela e de mais ninguém. Abro a porta, apressada. E a encontro sentada na beirada da minha cama. Erébia estava de volta.

***

Endireito as costas e a encaro. O coração está descompassado. Ainda tenho dúvidas se a mulher sentada na minha frente é ela mesma ou minha imaginação. Queria correr para os seus braços e dizer o quanto senti sua falta. Eu não queria que ela fosse embora nunca mais. Mas ao invés disso eu pigarreio para ter certeza que a voz não vai falhar e pergunto com a maior frieza que consigo imprimir:
— O que você quer?

Ela sorri, aquele sorriso lindo que se espalha pelo quarto inteiro.
— Como você está? — Erébia olha para mim e sinto o corpo arrepiar por baixo da toalha. —Soube o que houve com a sua mãe.
— E por isso você veio? Um pouco tarde, não acha? — Precisava me manter distante o suficiente.

Erébia levantou e caminhou até mim. Os passos felinos me encurralando. Os olhos cor da noite me encarando. Parou bem próxima, o suficiente para eu ter certeza que o seu cheiro era real. Para que eu sentisse o seu calor. Com delicadeza, encaixou uma mecha do meu cabelo molhado atrás da minha orelha. Recuei um passo e ela veio junto.

— Me perdoe, Liz. Eu não pude vir antes. — Ela falava baixinho.
— Não me chame de Liz! — explodi e me livrei do abraço que ela estava prestes a me dar — você sabe que eu odeio! Meu nome é Lizandra! LI – ZAN-DRA! O que te impedia de vir me ver, Erébia? O quê? Você sabe que odeio quando você faz isso! Odeio quando me deixa só! Toda vez que preciso de alguém de verdade ao meu lado você some, sua vadia desgraçada!

Eu gritava minha dor. Percebi que estava difícil respirar porque eu soluçava, e lágrimas pesadas vazavam dos meus olhos. O meu corpo todo tremia e me faltavam forças. Encostei na parede do guarda-roupas e deslizei para o chão. Não conseguia parar.

Erébia sentou ao meu lado deitou minha cabeça em seu ombro. E nem sua presença conseguia aplacar aquele buraco no meu peito que eu vinha tentando ignorar. Eu já não controlava os meus pensamentos.

— Ela vai ficar bem, Erébia? Minha mãe vai acordar e levantar daquela cama?
— Mas é claro, coelhinha. E eu vou te ajudar. Shiii. Vai ficar tudo bem. Você não precisa mais chorar. Eu não vou mais sair do seu lado.
— Promete?

Ela não me prometeu nada. Mas me respondeu com um beijo longo e fomos para a cama. Porque entre nós as coisas eram assim. Erébia sumia e aparecia de novo. E toda vez que ela ia meu coração ia junto. E quando ela voltava, a vida parecia fazer sentido outra vez. E durante aquelas horas em que ela me fez esquecer de tudo, eu quis acreditar que as coisas dariam certo.

***
Acordei quando ainda era madrugada. A garganta seca. A luminária do criado mudo jogando luz amarela no quarto. Me assustei ao encontrar Erébia deitada na cama de frente para mim. Ela me olhava e me deixei levar pelos seus olhos. Estávamos nuas, nossas mãos entrelaçadas. Meus olhos ardiam um pouco, nem precisava me olhar no espelho para saber que estavam inchados. Eu devia estar ridícula. Institivamente, puxei o lençol.

— Você é linda, Liz. — Ela disse, acariciando meu rosto.
— Você não dormiu?
— Você sabe que não durmo. — e sorriu.
— Está acontecendo alguma coisa, não está? — agora que eu não estava mais surtando, podia ver as coisas com mais clareza.
— O meu tempo aqui está acabando.
— Quê? — Me sentei na cama para assimilar o que estava ouvindo.
— Os zeladores do tempo já estão me caçando. De novo.
— Por isso você sumiu?
— Eu pensei em ir com eles dessa vez.
— Mas por que? E eu?
— É por você que ainda não fui.
— Eu não quero que você vá. — e a minha voz saiu ridícula, infantil. Com Erébia, eu sempre seria uma garota mimada de dezesseis anos. — Depois de passar dois mil anos aqui na terra, como você pode simplesmente ir para outro lugar?

Erébia riu.

— Você continua sendo a criança que conheci, Liz.
— Eu sei que perto de você eu não sou nada. E talvez eu não signifique nada para você também... — as lágrimas começaram a surgir de novo.
— Tem um jeito de eu conseguir ficar. E é exatamente o jeito que eu não queria fazer.
— Que jeito?
— Para fugir dos zeladores, eu preciso me esconder em você.
— Como assim?
— Tenho que apagar os rastros do corpo em que eu estava.
— E por que você tem que se esconder em mim?
— Eu não tenho mais tempo para convencer ninguém a me esconder.
— Foi só por isso que você voltou, não é?
— Por que você é tão desconfiada? Não ouviu nada do que eu disse? Eu vim me despedir, sua fedelha!
— E como eu posso confiar em você, Erébia?
Ela ergueu os braços num gesto de paz. Levantou da cama e começou a procurar as roupas pelo quarto. Aquela vadia ia embora de novo... e dessa vez, talvez nunca mais voltasse.
— Você é uma entidade milenar. Eu já vi as coisas que pode fazer. Como não consegue se livrar de meia dúzia de zeladores?

Ela riu de novo. De mim.

— Liz, quantas vezes eu já te expliquei que as leis do universo são para todos? Por que você acha que as pessoas morrem? O tempo passa, Liz. Mesmo que todos os relógios do planeta deixassem de funcionar ou de existir, ou se não conhecêssemos o conceito. O tempo passa. E pode acreditar, ele acaba. Os zeladores são responsáveis para que nada nesse mundo dure mais que o necessário. E nós sabemos que eu estou aqui muito além do necessário. Devo ter quebrado todas as regras que os burocratas da Ordem criaram.
E quando ela terminou de falar, já estava vestida novamente. Os coturnos calçados.
— Para onde você está indo?
— Eles chegaram. E não faço a mínima ideia de para onde vão me levar.

Uma ventania forte levantou as cortinas da janela e a porta abriu com estrondo. Passos firmes subiam a escada. Eu sabia que ela não estava mentindo e quem quer que fosse que estivesse causando aquele tufão dentro da minha casa, estava mais do que disposto e levar Erébia embora e isso eu não ia permitir. 

— Erébia?
— Liz.
— Ainda dá tempo de ficar comigo?
Ela sorriu e tocou minhas têmporas com as pontas dos dedos. Eu apaguei.



________________________ CONTINUA____________________________________

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CARMEM

em 9 de março de 2018


Sinopse: Amélia é uma jovem governanta começando seus trabalhos na Mansão Stern após ser contratada pelo excêntrico milionário Cássio. Aos poucos ela descobre que a mansão abriga mistérios e que giram em torno da pequena Carmen, a irmã mais nova.
Será que Carmen é apenas uma menina deslocada ou haveria um motivo sobrenatural para sua estranheza?

Mergulhe nesse mistério e descubra com Amélia o que pode acontecer nas sombras da mansão.


LEIA UM PEDAÇO DO PRIMEIRO CAPÍTULO:


 A charrete me deixou na entrada de uma estradinha de terra batida, ladeada por mato alto
e árvores. O condutor me disse que, seguindo por ali chegaria ao meu destino. Agradeci a carona
e segui. Aqui e acolá, as pedras me faziam pisar em falso, meus sapatos não estavam acostumados.

Me parabenizei mentalmente por ter escolhido um vestido cuja barra ficava pouco acima dos
tornozelos. Do contrário, teria uma boa quantidade de terra nas roupas. Sentindo o peso de minha
maleta, rezei para que a estrada chegasse logo ao fim. A viagem tinha sido cansativa e na ultima
noite havia dormido numa hospedaria na estrada, para garantir que chegaria pela manhã.

 Eu tinha sorte de chegar no alto da primavera, quando a neve e o sol mais frio tinham
ficado para trás. O caminho revelou uma leve subida e já estava ofegante ao finalmente enxergar
as grades grossas de um portão de ferro preto.

Além do portão havia um imenso jardim com estátuas brancas, retratando mulheres,
homens e crianças. Rosas brancas despontavam entre arbustos bem cuidados e outras plantas
ornamentais.

No centro do jardim havia um caminho de pedras lisas que se bifurcava ao chegar num
chafariz ornamentado de flores e tornava a se unir depois deste, apontando para o casarão.
Embevecida, puxei a corda do sino que localizei assim que me aproximei da grade.

Passados alguns minutos toquei novamente e ainda assim ninguém foi ao meu encontro. Resolvi
experimentar o portão e para minha surpresa estava aberto. Tive apenas que livrar o encaixe do
ferrolho e entrei no jardim.

Olhei ao redor e inspirei o perfume das flores. Depois de avançar além do chafariz, pude
ver melhor o casarão Stern. Uma construção sólida, quadrada e lisa. Havia pelo menos, oito
janelas de cada lado. A fachada inteiramente pintada de cinza. Era como se aquela casa não
pertencesse ao mesmo dono do jardim.

Meu estômago estremeceu. Jamais havia trabalhado numa propriedade tão imensa. Eu
tinha apenas 29 anos e nenhum resquício da segurança que deveria ter. Então respirei fundo,
apenas endireitei os ombros e segurei minha maleta com mais firmeza. No bolso do casaco minha
carta de recomendação.

Bati com a aldrava na porta de madeira maciça.  Ninguém. Bati novamente, controlando
a ansiedade. Nada. Lembrei-me do portão, e então segui o exemplo. A maçaneta estava
destrancada.

Entrei, cautelosa. A entrada da casa era marcada por um amplo salão sem mobília. O piso
era branco e tive certeza de que estava pisando em mármore. Logo a minha frente uma escadaria
larga que se bifurcava no andar de cima.

Haviam portas de madeira e vidro nas laterais do salão. Mantive silêncio procurando por
alguém que pudesse me receber, até ouvir um murmúrio vindo de uma das portas à esquerda.
Parecia que uma conversa se desenrolava e por mais que eu não quisesse parecer intrometida,
senti-me empurrada. Uma força magnética me puxava cada vez mais para perto.

— Olhos tristes são o que vejo em você.  — Ouvi uma voz masculina dizer.— Seus olhos
são enormes e me assustam, quando às vezes, e muito por acaso os encontro. Você não poderia
ser menos feia e desarrumada, Carmem? Anda sempre muda, esgueirando-se pelos cantos das
paredes, escondendo-se nas sombras atrás das portas desta casa imensa. Sua presença me enoja,
parece um bicho, não fala. Come sem maneiras.

Retraí-me. Quem falaria com outra pessoa assim?

— Os seus olhos tristes e enormes parecem cada vez maiores. — Ele continuou — Toda
vez em que me vejo obrigado a suportar sua imagem, são o que mais chamam atenção. Eles me
fazem perdoar toda a imundície que sua presença exala. Quero ver o quanto mais do seu rosto
estes olhos devorarão.

De onde eu estava, de frente para a porta semiaberta, pude ver o homem empertigar-se,
levantar da poltrona e aproximar-se de uma pessoa encolhida ao pé da escrivaninha. Dava para
ver um vulto vestido com panos encardidos. O rapaz suspirou e deu continuidade ao monólogo:

— Uma noite, sonhei que era toda olhos. Um grande par de olhos a vagar nesta casa, se
arrastando, como é de seu costume fazer. Foi uma visão medonha, tenho que admitir, mas... muito
intrigante. E penso se não é possível que se torne realmente aqueles olhos. Como sempre não fala
nada. É muda mesmo ou não sabe falar, criatura asquerosa?— Só então me dei conta de que se
tratava de uma garota, embora não pudesse ver seu rosto. A moça encolheu-se.

—Devia arrancar sua língua! É desnecessário mantê-la, se não a usa para nada!
O rapaz agachou-se e esbofeteou a menina com força. Limpou o sangue do anel num
lenço e ordenou que o deixasse em paz. Ela, por sua vez, arrastou-se para fora da sala, empurrando
com força a porta e deixando-a aberta de vez. Quase caí de costas com o movimento. Ainda me
sentia aturdida com o que acabara de assistir.

Enfiando o lenço no bolso do colete cinza, Cássio virou-se para mim lentamente,
parecendo finalmente atentar para minha presença.  Tentei controlar a tremedeira de meus braços.
De repente senti frio, mas busquei me manter firme nos segundos infinitos em que ele me encarou.
Na época me perguntei se ele sabia que eu estava ali, atrás da porta, acompanhando a cena
violenta. Hoje tenho certeza de que sabia, e mesmo assim não demonstrou constrangimento.
Tampouco parecia consternado ou envergonhado.

Ele apresentou-se como Cássio, dono do lugar e único herdeiro da família. Depois de uma
breve entrevista, passou-me a lista de obrigações e foi-se tão logo apresentou meus aposentos.
Meu quarto ficava no casarão, enquanto os outros empregados dormiam num pequeno prédio nos
fundos da propriedade. E assim fui admitida na Residência Stern.

Carmem era uma moça, cuja aparência me abstenho de descrever, por não encontrar
palavras que as valham. Tinha dezesseis anos, acho. Disseram-me que os jovens Stern eram
irmãos por parte de um dos pais. Nem sempre o que nos dizem é verdade. Quase nunca é.

...continua






Conto ZIG - Parte 04

em 8 de novembro de 2016


— Não tenho certeza se quero fazer isso, Zig. — Disse Vinni, jogando uma bituca no chão e amassando com o coturno.

Estávamos no muro dos fundos do cemitério Necrópole. Era meio da tarde de um domingo. Na Avenida Cardeal Arco Verde, quase ninguém passava. Um carro ali, outro aqui. E ninguém mais à vista. Era estranho pensar que no dia seguinte aquele mesmo lugar estaria apinhado de gente, de carros e alto-falantes, de lojas berrando suas promoções. Mas naquele momento, não. Era tudo calmo.

— Não vale dar pra trás agora. — Respondi. — Você que quis vir de dia. Podíamos ter esperado até a noite.

— Nem pensar! Detesto cemitérios. São horripilantes de dia, imagina à noite! Nem pensar, sua maluca!

Pulamos o muro que não era tão alto. Do outro lado nos apoiamos sobre uma lápide alta. Entramos rapidinho.  E começamos a caminhar apressados entre os jazigos. O cemitério parecia ser bem antigo.

— É por aqui. — Vinni falou apontando para um corredor estreito formado por uma fileira de lápides e o muro que havíamos acabado de pular.


— Ual! Isso é tão excitante! — Falei sem me conter. Era tão divertido! Estávamos prestes a descobrir o que havia acontecido com meu corpo.

Como não dava para andarmos lado a lado, ele foi na frente, mostrando o caminho e eu ia logo atrás.

— Vinni... — Chamei puxando a manga do casaco dele.

— O que é? — Ele respondeu sem olhar para trás.

— Por que aqui? Por que, sei lá, não me queimou? Você disse que não gosta de cemitérios...

— Eu queria que você ficasse num lugar onde eu pudesse te encontrar. Me imaginei vindo aqui te deixar flores e conversar com o nada, igual as pessoas fazem nos filmes. Se eu soubesse que você ia ficar me assombrando eu teria te cremado mesmo.

De um jeito estranho o Vinni era uma pessoa muito fofa! Tem pessoas que são fofas e não precisam fazer nada para isso. Mesmo que elas teimem em interpretar o papel de ranzinzas.

Andamos naquele lugar esquecido que fedia a coisas velhas, lamentos e lágrimas por mais alguns minutos. Já estava me perguntando se ele sabia mesmo para onde estávamos indo quando paramos.

Uma árvore linda estava em nossa frente, a copa frondosa, coalhada de flores amarelas lindíssimas. O chão ao redor da árvore estava coberto das mesmas flores, formando um tapete redondo e irregular. Tive a sensação de que o tempo havia parado. Do lado esquerdo estava minha lápide, feita de uma pedra branca muito bonita, escrito ZIG.

— Poxa Vinni, é tão lindo! Nossa! É tão lindo! Muito obrigada!

Ele ficou mudo, olhando para mim e para a lápide e para a árvore.

— Você acha mesmo que preciso abrir seu túmulo, Zig?

Fiquei de frente para ele.  Nossa diferença de altura sempre me fazia ter que puxar seu rosto para mim quando queria atenção.

— Sim. — respondi. —Se não abrirmos você nunca vai se convencer de que voltei de verdade. Sem contar que estou com muita curiosidade para saber o que aconteceu com meu antigo corpo.

Ele suspirou. Tirou o casaco e começou o trabalho minucioso de dobrar as mangas da camisa de algodão. Dobrou também a calça jeans até os joelhos.

Com muito esforço empurrou a tampa de pedra branca, liberando a abertura da cova. Pulou para dentro do buraco e abriu meu caixão. Joguei a lanterna para ele. Amarrei uma corda na árvore e joguei a outra ponta para o buraco onde Vinni estava.

Me agachei na borda da cova, posicionando a lanterna para que Vinni pudesse ver melhor lá em baixo. Ele olhou para mim, como quem pedisse permissão para violar meu descanso eterno. Assenti com a cabeça e ele forçou a tampa do caixão.

Tinha uma versão bem ruim de mim lá dentro. A pele parecia uma gosma velha e queimada. Uma versão derretida. O cabelo era um ninho roxo, semelhante a uma palha de aço. Essa aparência pós morte era horrível! E contra todas as probabilidades, não fedia. — Pelo menos isso — pensei.

Vinni olhava para aquela coisa no caixão com atenção. Olhava de volta para mim.

Notei que meu amigo estava suando muito, incomodadíssimo. Seu corpo estava tremendo.

— Que brincadeira é essa, Zig? — Perguntou, a voz mais baixa que o normal.
— Eu também não sabia que meu corpo ficava assim. — Tentei explicar. — É esquisito, né?
— Isso é uma múmia derretida! Isso... isso não é você!
— Eu fui isso aí, sim! — Discordei.

Vinni abaixou e tocou naquela coisa derretida que era o cadáver. Um pedaço grudou em seu dedo e ele começou a sacudir a mão, enojado.

— Isso é impossível... — Vinni parecia péssimo. De repente era como se ele estivesse para cair e ficar por ali mesmo, na minha cova. — Preciso sair daqui. 

— Suba, amarrei firme a corda!


Empapado de suor, Vinni subiu de volta e o ajudei a repor a tampa da lápide. Seu peito subia a descia com a respiração rápida. Ele não parecia mais convencido de que eu não era uma alucinação.

Um silêncio esquisito havia se instalado entre nós.  Não sabia o que dizer, assim como não sabia o que estava se passando na cabeça dele. Eu bem que podia ter esse poder, né? Ler mentes... Pensando bem, melhor não. Quando escuto um elogio mesmo que ele seja falso, gosto que seja um elogio.

Ouvimos um berro e nos assustamos. Um velho baixinho corria em nossa direção com um cacetete!

— EI VOCÊS DOIS!!!

Não precisamos falar um com o outro para saber o que devíamos fazer. Corremos como se não houvesse amanhã. Corremos desesperados. De vez em quando olhávamos para trás para saber se o velho estava mais perto e apesar de não vermos nada, ouvíamos os passos cansados do guardinha.

Chegamos à parte do muro que era mais baixa e pulamos de volta para a rua. Continuamos correndo quadras e mais quadras avenida a cima, até chegarmos à Praça Benedito Calixto. Estávamos exaustos, o coração saindo pela boca. Nos jogamos no primeiro banco que vimos. Vinni arfava.

Quando finalmente ele recuperou o ar, falou quase sorrindo:

— Você ouviu o que aquele velho falou?

— “Ei vocês dois!” Foi isso o que ele disse, eu acho.

— Ele viu você Zig! Ele viu você! — E desatou a rir.

Em seguida me puxou e continuamos subindo a avenida até chegarmos ao metrô. Dentro da estação ele perguntava às pessoas se estavam me vendo.

Todo mundo olhava para o Vinni como se ele fosse uma espécie de doido. Pensamento que eu confirmava, sinalizando com o dedo indicador que ele era mesmo, um bocado matusquela. Claro que estavam me vendo, ora bolas! Eu não era uma alucinação!

— Esse tempo todo... — Ele começou. — Esse tempo todo era só eu ter perguntado se os outros estavam te vendo. Eu não precisava ter violado um túmulo!

— Er... eu também não pensei nisso! Mas foi divertido, não foi?

Naquele horário o metrô estava vazio. Estávamos sentados lado a lado. Vinni segurava a cabeça, como se tentasse entender o que estava se passando.

Voltamos ao apartamento sobreloja. Mal entramos, Vinni me prensou na parede, segurando meu rosto com as duas mãos. Que rude!

— O que você é, garota? — Falou baixo, a voz saiu grave, preocupada. — Já entendi que não está morta, que não estou alucinando. Ou talvez eu já esteja num grau tão alto de loucura que estou fantasiando sem limites...

— Saia de cima de mim. Saia agora.

Ele obedeceu e deixou o corpo desabar no sofá.

— Você sabe quanto custou te enterrar, sua retardada?! Despesas funerárias são altas, sabia? Eu devia ter deixado você lá, espatifada naquela calçada e ter saído de fininho!

— Poxa Vinni, desculpe. Eu não sabia que conseguiria voltar. Isso também é novo para mim, acredite. E você me enterrou num lugar tão lindo...

— Isso é bizarro! Quem é você, Zig? Ou melhor, o que é você? Não venha com essa conversa de que não sabe, de que não lembra. Eu posso ver na sua cara que você sabe.

— Vinni... por favor, eu.. eu não quero falar sobre isso. — respondi, olhando para os meus pés.

— Como assim não quer falar sobre isso? Eu tenho o direito de saber com o que estou lidando! O que você quer afinal, me enlouquecer? Está fazendo um ótimo serviço!

— Confia em mim, pode ser? Eu também preciso de um tempo para entender. — Mentira. Eu precisava era de um tempo para criar coragem. Por que era tão difícil dizer o que eu era?

— Olha, eu tenho um monte de trabalho para fazer. — Disse ele, apontando para a mesinha do computador com pilhas e mais pilhas de papéis empilhadas sobre ela. Era o caos. — vai dar uma volta, some um pouco da minha frente, pode ser?

— Vinni...

— Some garota.


Continua na próxima terça!

Leia ZIG Parte 01 | Parte 02 | Parte 03 

Conto ZIG - Parte 03

em 1 de novembro de 2016


Cara, eu tinha que parar com essa mania de dormir em qualquer lugar. Sentei devagar, e mais devagar ainda abri os olhos. Pisquei algumas vezes até entender onde estava. Uma ressaca de sono em excesso deixava tudo mais lento. Uma névoa fumacenta se espalhava ao meu redor. Você já ouviu falar que as pessoas ficam um pouco burras quando acordam? Bem, eu não sou exatamente uma pessoa, mas comigo não é diferente. A burrice pós sono me acompanha. Experimentei mexer o pescoço. Dolorido.

Através da neblina reconheci os móveis. O teto branco. Sim! Eu estava no apartamento de Vinni! E não era ele ali, bem na minha frente, sentado sobre a mesinha de centro? Os olhos dele estavam injetados, com manchas roxas ao redor. A boca escurecida. A pele antes clara, agora parecia amarelada. E as mãos tremiam, segurando um cigarro já no fim.

— Er... oi? — Tentei começar um diálogo. Vinni continuava me encarando. Levou a bituca de cigarro à boca, deu uma última tragada e por fim esmagou o que restou num cinzeiro ao seu lado.


— Sabe — Começou ele. — O sentimento de culpa pode gerar alucinações. Devo estar num grau muito elevado, pois estou ouvindo minha alucinação falar comigo.

Só então percebi que ele falava para um aparelhinho. Um tipo moderno de gravador.

— O que aconteceu com você? — Perguntei.

— Matei minha melhor amiga. Todos dizem que foi um acidente. Eu a empurrei do oitavo andar. Eu sou um assassino. Mas ninguém acredita. A justiça não quer me prender. Eu sou muito covarde para tirar minha própria vida.

Comecei a me preocupar de verdade com o estado do meu amigo. Ele parecia estar em outra dimensão. Suspirei.

— Mas Vinni, realmente foi um acidente, ok? Você estava bêbado demais. E eu que estava no lugar errado. Quem, em sã consciência, ficaria se equilibrando num guarda corpo?

— Interessante. — Continuou ele para o gravador. — Estou projetando palavras de conforto em minha alucinação. Como ela poderia estar aqui, quando na verdade a enterrei semana passada?

— Vinni. Pare com isso. — Falei com firmeza, tirando de sua mão aquela porcaria prateada. — Eu estou aqui de verdade. É sério. Eu sei que eu morri, mas estou de volta, tá? Não sei como, mas estou. Você não me matou, foi um acidente.

— Não, não foi. — rebateu, exasperado. O estado dele era péssimo. Tentei confortá-lo afagando seu rosto. A barba falhada lixava de leve a pele de minha mão. Ele fechou os olhos.

— Eu gostaria tanto que isso tudo fosse verdade. Que você, por algum milagre estivesse viva, Zig.

— Mas é verdade, cara, eu estou aqui. Continuo vivendo. Não sei como.

— Então existe vida após a morte? Você veio buscar sua vingança? — Os olhos dele, não pareciam fazer uma pergunta. Aquilo era mais uma súplica.

— Não Vinni, claro que não. E também não sei o que há do outro lado, já que estou nesse aqui.

— Me leve com você, Zig. Arraste-me para o inferno. Eu mereço. Eu... eu te matei!

Existem algumas coisas ridículas demais. Como por exemplo, por que ele achava que eu iria para o inferno? Não que eu ache que exista um, claro. E além disso, também existem algumas coisas que eu não aguento. Existem algumas coisas que bloqueiam meus pensamentos e bons sentimentos. Aquela cara de “me odeio e quero morrer” que o Vinni estava usando, corroía meu pequeno estoque de paciência.

E antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, minha mão explodiu na cara dele.

— Pare com isso agora! — vociferei. Embora não estivesse com tanta raiva assim. — Que porcaria de assassino você é que fica choramingando a morte de sua vítima? Eu não entendo muito bem dessas coisas, mas alguém que mataria outra pessoa, assim de boas, não se trancaria em casa e desistiria da própria vida, se enterrando em auto pena! Acorda seu cretino! Acorda! — Só quando terminei o discurso, percebi que o fiz estapeando a cara do Vinni.

O olhar dele tinha mudado. Agora sim, parecia mais vivo, mais acordado.

— Então Vinni, você pode ser muita coisa. Inclusive meu melhor amigo. Mas não é um assassino. Tire essa merda da sua cabeça e aceite que eu continuo vivendo.

Ele começou a rir. Achei que era um bom sinal até começar me preocupar de novo. A risada parecia não ter fim, embora o oxigênio dele sim. Quando pensei se deveria esbofeteá-lo novamente, ele parou.

— Você... Você me chamou de cretino? Eu realmente estava lamentando sua morte! Eu vi sua cabeça disforme, seus miolos espalhados pela calçada, ok? Eu vi! Eu enterrei você. E por isso sei que estou tendo alucinações. Mas parece que mesmo quando eu imagino, você continua sendo essa escrota! Você tem problema garota, não sabe confortar ninguém! — Ele esfregava com vontade as bochechas vermelhas. A essa altura eu não sabia mais se a vermelhidão era de raiva ou por causa dos meus tapas.


Eu tinha que fazer alguma coisa, para tirar o meu amigo dessa depressão pós-assassinato-não-intencional. Ele tinha me enterrado, não tinha? Ahá, talvez seja isso, então. Só talvez.

Continua na próxima terça!

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